O grafiteiro/artista/pesquisador e o ser culto híbrido contemporâneo

 

O artigo proposto apresenta uma pesquisa no campo da linguagem da nova geração de Graffiti de rua provindos da tradição nova-iorquina e inspirados no movimento cultural hip-hop. Aborda questões de sua estética, poética e ética – considerando-as como constituintes de sua “utopia inconsciente” em relação aos sistemas a ele relacionados, seus conflitos, de um lado, com a lei e, de outro, com o mercado de arte - que determinam diferentes perfis de produção – e a pesquisa acadêmica e suas ponderações acerca do grafiteiro/artista/pesquisador em arte. A pesquisa parte de um estudo histórico hermenêutico do período inicial do Graffiti em Nova York, transpassando as décadas seguintes até os dias de hoje, com abordagem teórico/crítica das mudanças estéticas e poéticas desse período inicial como antecedente que esclarece as intervenções atuais e ênfase no enfoque dessas produções atuais, em uma abordagem empírico/analítica, incluindo reflexões acerca da produção desses grafiteiros (entre eles o próprio artista-pesquisador) que hoje integram o mercado. O autor, imbuído de preceitos adquiridos em sua longa trajetória como artista de rua interventor dentro da estética do Graffiti nova-iorquino, é colocado também em contexto, tendo como base suas produções anteriores e posteriores ao ingresso nos meios expositivos institucionais bem como no campo da pesquisa stricto sensu disciplinada na arte do Graffiti. O artigo problematiza e traz questionamentos acerca da necessidade ou não de ilegalidade na ação em prol da liberdade utópica tida na essência do fazer graffiti, assim como visto em PALLAMIN (2002) em relação à arte urbana como prática crítica. Uma vez analisadas determinadas produções realizadas, cumprido o levantamento histórico e composto uma visão do cenário atual, serão levantadas questões em correlação ao pensamento de CANCLINI (1997) no que diz respeito ao ser culto contemporâneo, formulado não mais como um ser erudito, mas um ser entre popular e erudito; esse conceito, neste artigo, é reiterado e associado à tríade grafiteiro/artista/pesquisador como um ser culto híbrido contemporâneo. A dialética desse ser culto híbrido consiste no conflito de que produzir Graffiti após acessar espaços expositivos parece contradizer o próprio artista de rua em sua ideologia e motivação inicial de intervir em espaços públicos: A ação autêntica demonstra o desejo de ser visto, de ser valorizado e a necessidade de pertencimento à cidade, diferentemente do Graffiti realizado com cunho político ou de uma práxis poética. O Graffiti, dentro do estilo nova-iorquino, com sua força política e estética, grita à sociedade a necessidade de valorização de quem o faz, como uma campanha auto-publicitária individual sem maiores preocupações ideológicas coletivas – contudo, dentro de um coletivo de grafiteiros, há uma ética, uma tradição própria inventada que os norteia eticamente. Dada a ascensão dentro dos campos midiáticos, tendo artistas brasileiros de importante representatividade e também responsáveis por esta ascensão, é possível reconhecer uma pós geração que se embrenha no fazer do Graffiti e é afetada pelas novas possibilidades existentes. Observa-se, criticamente, que os jovens praticantes não mais reivindicam um espaço para sua condição de “flâneur” na cidade (que no contexto do grafiteiro é chamado de “rolê”); contrariamente, buscam espaço na mídia, reconhecimento econômico, reconhecimento artístico. Agem cada vez mais explicitamente como pequenas agências de publicidade com o foco na divulgação de suas marcas, muitas vezes apenas reproduzindo na galeria uma imagem já previamente realizada nas ruas, desconsiderando um aspecto importante da essência do Graffiti que é a sua autêntica inserção e significação na própria rua – nesse sentido vale lembrar BENJAMIN (1985):  “Mesmo na reprodução mais perfeita, um elemento está ausente: o aqui e agora da obra de arte, sua existência única, no lugar em que ela se encontra”. Nesse aspecto, a própria ideologia da simples ocupação da cidade se perde no paradoxo daqueles que, originariamente, tanto reinvidicaram este espaço – e os grafiteiros de agora trocam esse espaço pelo reconhecimento econômico-financeiro? Ou, talvez, a valorização e deslocamento da origem do fazer Graffiti estaria sendo empregado no desejo de criação e desenvolvimento de novos artistas? Enfim, a necessidade de ocupar a cidade continua e continuará existindo. Entre interventores urbanos de formação universitária, constata-se o estudo na performance, na land art, na arte política ou na própria intervenção; contudo, o conceito de “flanerie” dos dadaístas talvez tenha atingido seu ápice nas mãos dos escritores do Graffiti. O simples caminhar da prática de ocupação da cidade das últimas décadas, como uma vertente da arte contemporânea em nomenclatura, torna a prática do Graffiti mais próxima ao simples ato de ocupar a cidade como em sua origem dada.

 

Palavras-Chave:

Graffiti .Utopia inconsciente. Ser culto híbrido.

 

 

 

 

 

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